Sétima Arte: Coringa

02/10/2019


Eu não tenho como começar este texto de outra maneira: o Coringa de Joaquin Phoenix é outro nível de atuação. É algo de outro mundo. O alcance dramático e a entrega dele para o personagem estão de um jeito que eu nunca vi antes em toda minha vida.



E já deixo um aviso aqui, logo de início: Coringa não é um filme típico de super herói. Na verdade ele não é um filme de super herói, ponto. Scott Silver (roteiro, The Fighter) e Todd Phillips (roteiro e direção, Se Beber Não Case) entregam uma sátira sombria e pesadíssima dos dias atuais em forma de uma história de origem de um vilão.

Coringa, o personagem, é como uma folha em branco. Nunca ficou clara, nos quadrinhos, a sua identidade nem a sua origem. Ele é o caos pelo caos. Não existe um motivo para o personagem ser quem é ou fazer o que faz. Ou pelo menos o Batman desconhece esse motivo e nós, por tabela, também não sabemos. Talvez por isso, para que o personagem funcione no cinema, em uma história fechada em si, com início, meio e fim, seja necessária a invenção de uma origem ou motivação para o vilão a cada incursão dele na telona, como, por exemplo, no Batman de Tim Burton (1989), em que o Coringa de Jack Nicholson é o bandido que mata os pais de Bruce Wayne e, anos depois, sofre um acidente em uma fábrica de produtos químicos. Acho que, nesse ponto, a versão do personagem que mais se assemelha aos quadrinhos em questão de mistério quanto à sua origem e motivação é a de Heath Ledger. Mas Phoenix conseguiu se distanciar de ambos Nicholson e Ledger e criar algo novo e perturbador, graças a um roteiro que levanta questões interessantíssimas e nunca as resolve de fato. As deixa fermentando em nossas mentes mesmo dias depois da sessão.

O filme não obedece a nenhuma cronologia da DC/Warner no cinema. É uma obra isolada, fechada em si. Ele nem sequer faz referência a filme algum do fraquíssimo e inconsistente universo cinematográfico da DC. Talvez ele seja mais fiel à trilogia Nolan do que ao resto dos filmes subsequentes, mas mesmo assim, afirmar isso é um chute bem alto. A história não traz data e a estética é bem atemporal. Como é um personagem do universo do Batman, o cenário é uma Gotham City (que claramente é a New York dos anos 70/80, afinal Phillips bebeu descaradamente na fonte de Taxi Driver) que ainda não despontou ao caos pleno, mas que começa a dar indícios do nível de criminalidade que todo fã do homem-morcego sabe que a cidade tem.

Jogado no meio desse cenário pré-ebulição, está Arthur Fleck, um cara com uma vida de m****, com um problema mental que o faz gargalhar quando está nervoso, que sonha em ser comediante stand-up, mas trabalha como palhaço para uma empresa de recreação, e é vítima do medo e da podridão que começa a se alastrar pela cidade. Fleck cuida de sua mãe doente que, por algum motivo, espera que Thomas Wayne (o milionário bat-pai) venha ao resgate dos dois, pois costumava trabalhar para ele. E essa espera, aliada às surras - algumas metafóricas, mas muitas literais - que Fleck toma da vida o levam a ultrapassar o limite da sanidade para um nível de loucura nunca antes mostrado no personagem na telona, dando luz ao símbolo do caos em Gotham e ao - por que não? - anti-Batman que a gente tanto ama odiar.

[ATENÇÃO! A partir de agora o texto terá SPOILERS do filme! Se você ainda não assistiu a Coringa, pare de ler aqui e continue depois de ver o filme. Ou siga em frente por sua conta e risco, mas não chore depois...]

Spoilers depois da foto...


Spoilers em 3...


                    2...


                    1...


Lembra quando eu escrevi lá no começo que Coringa é uma sátira dos dias atuais? Muito disso se deve ao roteiro humanizar Arthur de uma forma muito brutal. Ele nos mostra o outro lado da história. Um lado nunca antes explorado. O filme pinta Thomas Wayne sob uma outra luz. Porque verdade seja dita: a gente não conhece o pai do Batman. Apenas vimos ele morrendo e sabemos que sua morte serviu de motivação para que Bruce se tornasse o homem-morcego. Mas não sabemos de fato quem ele era. Existe toda uma mística, quase uma qualidade de mártir em cima do personagem, que Phillips e Silver prontamente destroem ao inserir na história um Thomas Wayne "velho rico da meritocracia", daqueles que acham que "bandido bom é bandido morto". Um milionário que quer se candidatar a prefeito de Gotham para "acabar com a vagabundagem" e que declara em rede nacional que "todos aqueles que não conseguiram ser bem-sucedidos em suas vidas não passam de palhaços".

E do outro lado temos Arthur, que descobre que sua mãe acredita que ele, na verdade, é filho de Wayne. Um filho que ela teve numa pulada de cerca do milionário, enquanto ela trabalhava de empregada em sua mansão (alôôô Schwarzenegger!!!). Ele também descobre que sua mãe foi admitida no asilo Arkham e que, em sua ficha, constava que ele teria sido adotado por ela e que ela, na verdade, imaginou o tal caso com Wayne. Ela teria sido internada em Arkham por permitir que seus namorados abusassem de Arthur quando criança.

Mas aí é que está o pulo do gato (ou seria do morcego?): o roteiro em momento algum esclarece a história! Ele deixa ela em aberto. Toda informação que temos vem da leitura feita por Arthur da ficha de sua mãe em Arkham, que pode muito bem ter sido facilmente manipulada por alguém com muito dinheiro e, ei! Thomas Wayne tem muito dinheiro! O filme te deixa com essa pulga atrás da orelha e nunca resolve o fato de que: e se Arthur fosse, de fato, filho de Thomas Wayne? E se Wayne pagou para colocar a empregada em Arkham com uma ficha falsa e documentos falsos de adoção para acobertar o caso e impedir que ela trouxesse o assunto à tona? Afinal, se ela é comprovadamente insana, ninguém vai dar atenção e o escândalo está evitado.

Mas o mais interessante é que, filho ou não de Wayne, Arthur é levado à loucura por isso ser apenas mais uma das surras que a sociedade lhe dá, e acaba descobrindo que matar não pesa sua consciência e que certas pessoas que pisam em quem não teve as mesmas oportunidades - como se não tê-las ou "não fazer algo de si mesmo ou com sua própria vida" fosse uma escolha para todos - passarão a, por sua mão, ter o que merecem. E a gente fica do lado dele. A gente entende a motivação dele. A gente abraça a causa do Coringa. Mas, ao mesmo tempo, ele não tem causa nenhuma. Ele mesmo declara isso. Ele é só caos. É só dor. É só loucura. Ele se torna o símbolo do caos em Gotham e, em um efeito borboleta malévolo, acaba causando a morte dos Wayne - que "tiveram o que mereceram" - e criando o Batman.



Coringa é uma obra maravilhosa sobre solidão, loucura, sobre como a falta de compaixão entre as pessoas pode ter consequências catastróficas. Estreia nesta quinta (3/10) e MERECE ser visto no cinema mais de uma vez!

Luis é podcaster, criador do Geekburger, resultado de uma vida inteira de filmes ruins, cultura pop, hardcore/metal e faz burgers bons pra c#*@O!

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