Sétima Arte - X-men: Fênix Negra

05/06/2019



Vou começar admitindo: nunca gostei de nenhum dos filmes dos X-men.



Calma, explico: cresci lendo os quadrinhos. X-men era provavelmente o meu gibi favorito, depois do Homem Aranha. Eu adorava o líder carismático que o Ciclope era, a sua história de amor com Jean Grey - às vezes atrapalhada pelo Wolverine -, achava a Vampira linda (ah, a adolescência... não?), gostava de como, a cada edição, iam aparecendo mais e mais mutantes, mas a coisa tinha uma ordem, uma sequência. E todo mundo sabia qual era o time inicial: Ciclope, Jean, Fera, Homem de Gelo e Anjo, sob a tutela do Professor Xavier. Tudo bem, personagens mais carismáticos foram aparecendo ao longo do tempo, como o Wolverine e a própria Vampira (ai, ai...), então até era de se esperar que uma incursão do time no mundo do cinema atropelasse um pouco essa ordem.

Mas o primeiro filme dos X-men, apesar de ter seu valor por ter provado que filmes de super-herói são financeiramente viáveis para Hollywood e ter dado start a uma enxurrada deles, não é um filme bom. A forma como as personagens foram caracterizadas me incomodou demais na época e me incomoda até hoje. Eis os motivos:

Hugh Jackman tornou o Wolverine um galã., um ícone sexual. Só que o Wolverine é um anti-herói. E ele é baixinho, atarracado e feio. Seu sucesso com as mulheres tem a ver com feromônios e magnetismo animal, não com beleza física. Não me entendam errado: não sou contra a presença de galãs. Acho válido, acho que tem que ter eye-candy pra todo mundo. Mas esse posto era para ter sido ocupado pelo Ciclope, que é o líder da equipe e é realmente um cara gato pra c@#$% nos quadrinhos. Mas aí o Ciclope do James Marsden é um bundão, chorão, carente, imprestável e que não tem a mínima postura de líder. Não é à toa que a Jean da Famke Janssen (uma das poucas escolhas acertadas do elenco) pende mais pro lado do galã do adamantium.

A Vampira e o Magneto também me incomodaram bastante. Ela por ser uma criança assustada e talvez por eu estar acostumado com a Vampira "pós-sugar-os-poderes-da-Capitã-Marvel", confiante e com senso de humor sagaz. Ele por conta da interpretação do maravilhoso sir Ian McKellan estar mais para Seu Peru do que para Magneto mesmo. Aquele vilão boçal, caricato e quase saído de um episódio do Scooby Doo.

Mas o principal motivo - e este está em todos os filmes, inclusive no mais recente, Fênix Negra, que estreia amanhã - é a maldita incapacidade de escrever situações que considerem as limitações (e a ausência delas) dos poderes dos mutantes. Parece que os poderes se modificam conforme o roteirista precisa e isso gera situações questionáveis por qualquer nerd que preste um pouquinho de atenção.

A sensação geral que fica quanto a todos os filmes dos X-men até hoje é que o foco sempre foi mais na metáfora do preconceito do que em explorar as possibilidades do título como uma franquia de super-heróis mesmo. É importante falar sobre preconceito e foi para isso que Stan Lee criou o grupo. Mas a parcela heróica tem que estar lá também, para validar o discurso contra o preconceito. E essa parte parece deixada de lado em todo santo filme. O uniforme está lá, mas o heroísmo, não.

Aí depois de 3 filmes horríveis, veio finalmente a esperança: X-men: First Class. Um filme sobre a primeira turma de mutantes da escola de Charles Xavier, situado nos anos 70. E que, apesar de não ser o primeiro time original (aquele que eu citei no primeiro parágrafo), foi o único filme mais ou menos ok da franquia. Só que ele gerou alguns problemas, como, por exemplo, a Mística de Jennifer Lawrence.

Seguinte: J-Law fez a Mística quando ainda não era praticamente ninguém. Não tinha Jogos Vorazes, não tinha David O'Russell, não tinha Oscar. Inventaram uma relação entre Xavier e Mística que nunca existiu, pois ela sempre foi só uma vilã nos quadrinhos. Acredito que fizeram isso porque a personagem, vivida por Rebecca Romjin nos 3 primeiros filmes, era muito carismática. Tão carismática que mantiveram a mesma maquiagem de Romjin em Lawrence. E no final do filme (spoilers!) ela acaba ficando do lado do Magneto, então fica subentendido que tentaram dar uma espécie de história pregressa para a personagem como justificativa para aproveitá-la.

Mas aí veio Jogos Vorazes, veio David O'Russell, veio Oscar. E J-Law virou uma estrela. Uma A-list celebrity. E com isso veio também o maldito empresário consultor de carreira. E ele fez o quê? Merda né? Sim. Tenho certeza que o fato de a Mística não ser vilã nos outros filmes e ainda por cima ser a líder dos X-men (de uma maneira pra lá de mal explicada) é exigência de contrato. E a piora gradativa da qualidade da maquiagem dela também. Em First Class ela levava 8 horas para ficar caracterizada (assim como Romjin em todos os filmes que fez no papel), mas esse tempo foi diminuindo em proporção inversa ao tamanho da conta bancária da moça.

A "evolução" da maquiagem da Mística, segundo o SuperAmiches.


E não vamos nem falar da bagunça que é a linha do tempo dos filmes!

O que nos leva, finalmente (depois de todo esse discurso mau humorado) ao filme recente: Fênix Negra. Ele é mais uma adaptação da Saga da Fênix do quadrinhos (X-men 3: Confronto Final também adaptou essa história), em que uma força cósmica toma posse do corpo de Jean Grey (Sophie Turner, a "Sonsa" Stark) e faz ela aprontar altas confusões. Aqui, o grupo está indo para o espaço em uma missão de resgate de uns astronautas que se depararam com a tal força. Está tudo dando certo, até a hora em que dá errado e Jean absorve o negócio e fica com o capeta no corpo.

Eu saí do cinema com mixed feelings. Por eu ter ido à sessão com expectativa nenhuma, acabei me divertindo, mas isso não significa, necessariamente, que Fênix Negra é um filme bom dos X-men. Ele tem acertos, mas ainda tem muito erro.

No time dos acertos está a própria Sophie Turner. Ela é uma ótima atriz e fez miséria com o texto mais-ou-menos que deram pra ela. O fato de que aqui o discurso do preconceito está presente em pano de fundo e o grupo é visto como uma equipe de super-heróis em boa parte do filme também é ponto a favor. James McAvoy e Michael Fassbender como Xavier e Magneto, respectivamente, também dão conta do recado e o Ciclope do Tye Sheridan (Ready Player One) é quase um líder.

Agora vamos aos erros... Senta aí e pega a pipoca, porque tem muitos!

A Fox segue dando o emprego para roteiristas que não sabem considerar as possibilidades dos poderes dos mutantes para escrever as situações da história, como eu apontei antes. Só para citar um dos muitos exemplos: Magneto não consegue salvar de uma queda uma personagem que está segurando duas facas! O poder do Magneto é manipular o metal, certo? QUALQUER METAL, certo? Ele pode modificar a sua forma e pode deslocá-lo no espaço. Portanto, graças ao fato de termos, por exemplo, ferro no nosso sangue, o Magneto consegue VOAR. Então por que diabos ele não conseguiria salvar um membro do seu time da morte, visto que, além de ter metal no sangue, essa pessoa ainda tinha duas facas de metal na mão?

Já falei da maquiagem da Mística, né? Pois é... Se em First Class levou 8 horas para fazer, aqui deve ter durado uns 5 minutos no máximo. É praticamente um cospobre de Mística: uma peruca horrorosa tipo as do Hermes & Renato, a cara pintada com tinta têmpera azul (num tom diferente do azul dos outros filmes) e um monte de pintas pretas coladas no rosto, provavelmente feitas em EVA, e que não são nem parecidas com a textura de pele da Mística original do cinema.

O filme tem uma vilã, interpretada por Jessica Chastain (a genérica mais barata da Bryce Dallas-Howard... tô brincando! Ela é uma ótima atriz!), que é totalmente desnecessária e só mostra a falta de coragem do roteiro em desenvolver a Jean Grey como vilã, para depois encontrar redenção. Não, aqui ela é quase vilã e aí encontra redenção.

O "quase" também é um grande problema do filme. Os arcos são desenvolvidos muito rapidamente, é tudo muito corrido. Storytelling corrido funciona com alguns autores, quando eles são bons, mas aqui não funcionou. O conflito já acontece na primeira missão dos X-men como super-heróis. E essa é provavelmente a primeira missão heroica deles em toda a franquia. A gente merecia ter ganhado uma missão de contextualização antes dela, como os filmes dos Estúdios Marvel fazem. Todo o arco de Jean ganhando os poderes da Fênix e perdendo o controle é mal desenvolvido, também. Ela tem um ou dois ataquezinhos de raiva que não são o suficientes para a gente comprar a gravidade do problema que o roteiro quer nos vender. E o filme tenta resolver isso acendendo as veias na cara de Turner.


Enfim, Fênix Negra termina deixando dois sentimentos bem claros: o alívio por essa franquia ter acabado e a esperança de que, com a compra da Fox pela Disney, a gente tenha um reboot dos X-men feito da maneira certa. Meu eu adolescente leitor de gibis agradece.



Luis é podcaster, criador do Geekburger, resultado de uma vida inteira de filmes ruins, cultura pop, hardcore/metal e faz burgers bons pra c#*@O!

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