[Resenha] A Mão Esquerda da Escuridão - Ursula K. Le Guin

24/10/2018


Gethen não é uma planeta tranquilo de se habitar, os primeiros enviados do Ekumen já haviam deixado isso bastante claro inclusive no apelido que deram ao planeta antes de conhecer o  seu real nome: Inverno. Recém saído de uma era glacial (recém em parâmetros geológicos, claro), apenas uma faixa intertropical possui temperaturas habitáveis, o que não signifique clima ameno e abundância de recursos, Gethen ainda é um lugar terrivelmente frio para quem não é do planeta, e esse rigor ambiental se reflete nos gethenianos.



Os Ekumen são uma federação, por assim dizer, uma união dos planetas habitados por formas de vida inteligente que, por uma melancólica explicação, são sempre humanos, mesmo com uma diferença ou outra. Talvez a maior diferença física entre as espécies conhecidas esteja justamente nos gethenianos, seres assexuados na maior parte do tempo, que sofrem diferenciação masculina ou feminina apenas no seu período fértil chamado kermer. Os gethenianos podem se diferenciar em masculino em um kermer e feminino em outro, a diferenciação não é arbitrária.

Com a missão de convencer Gethen a fazer parte dos Ekumen por vias pacífica e diplomática, Genly Ai foi enviado após o mesmo se voluntariar. Não existe pressa para que a união seja aceita, muitas vezes o primeiro enviado não logra sucesso e mesmo assim não é incomum que se passem anos antes que o acordo seja firmado. A missão de um enviado é uma missão de vida, já que pelas distâncias planetárias, aquele que sai de seu planeta natal para uma missão não retorna tão cedo, dias a bordo de um cruzador na velocidade da luz são décadas para quem fica pra trás.

O desenvolvimento em Gethen é confuso para padrões humanos, uma sociedade sem diferenciação sexual, sem distribuição diferente de funções, até mesmo guerra e violência não são a mesma coisa, não possuem o mesmo significado ou intensidade. O sistema político é quase feudal, medieval, o que não significa que não exista tecnologia avançada, como comunicação via rádio ou transportes elétricos. Entre tantos anacronismos Genly terá que provavelmente mudar a si antes de conseguir atingir o seu objetivo.
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A aquisição desse livro se deu mais por uma bronca pessoal quando eu estava olhando pra minha prateleira. Recentemente li Frankenstein para um vindouro Vira Página, e presenteei minha namorada com O Conto da Aia já avisando que um dia eu o pediria emprestado, mas fora o clássico de Mary Shelley, na minha coleção havia apenas mais uma obra escrita por uma mulher, O Sol é Para Todos, de Harper Lee (já resenhado por aqui). O porque de tão pouca presença de mulheres na literatura fantástica ou se o problema é mais de holofote para as já presentes autoras é uma longa (e necessária) discussão pra outro momento, o fato é que a minha maneira de remediar a curto prazo a situação foi adquirindo o objeto de crítica aqui no qual eu estava namorando pela Amazon havia um tempo considerável, e a satisfação por ter feito uma boa aquisição foi alta.

São muitos os pontos fortes desse livro, mas prefiro começar pelo que acaba sendo mais evidente bem no começo da leitura que é a ambientação, ou imersão, que se dá tanto por uma descrição simples mas que balanceia conceitos objetivos e subjetivos quanto por alguns capítulos curtos, no qual a autora narra lendas ou fatos históricos do planeta. Acaba sendo fascinante quando esse recurso é bem utilizado, como é o caso aqui, pois até o ritmo da leitura acaba sendo influenciado.
Outro ponto positivo é a capacidade de criar uma sociedade tão diferente e explicá-la durante o decorrer da leitura sem fazer isso de maneira maçante ou enciclopédica. Gethen é alienígena ao leitor também por seu racionamento constante de recursos naturais, mas principalmente pelo fato de que não há diferenciação sexual entre os seus habitantes fora do período fértil, fazendo com que todos os habitantes sejam sempre vistos da mesma forma. Nesse ponto o livro faz a ponte com a nossa sociedade e traz à tona a discussão sobre igualdade de gêneros de uma maneira pertinente mesmo sem ser explícita.

O terceiro principal ponto, como não poderia ficar de fora, é a história em si. A beleza da ficção científica muitas vezes é trazer os problemas reais para serem discutidos através de uma visão fantástica, e nesse livro a autora aborda não apenas a questão de gênero, mas também questões políticas e de espiritualidade (não confundir com religião por favor). O resultado acaba sendo uma obra marcante, o tipo de leitura que te deixa pensando sobre a mesma um bom tempo depois e que vale a pena ser revisitada no futuro com uma visão de mundo diferente. A Mão Esquerda da Escuridão foi vencedora do Prêmio Nebula em 1969 e do Hugo em 1970, dois dos principais prêmios voltados a ficção, um resultado mais que justo, colocando o nome de Ursula junto de outros grandes autores.

A edição da Aleph acaba sendo o que eu chamo de livro funcional, e isso é ótimo. Capa cartão, arte da capa simples e bonita seguindo a mesma estética do outro livro da autora publicado pela editora (Os Despossuídos), parte interna com papel pólen, nenhum extra além de duas introduções, uma do Neil Gaiman pra variar. Esse mesmo padrão foi utilizado para os livros do Phillip K Dick e do Arthur C. Clarke, inclusive quando colocados lado a lado é  impossível não notar as semelhanças nas edições. Sejamos sinceros, capa dura é bonito, mas as vezes é desnecessário. No balanço final, A Mão Esquerda da Escuridão é uma leitura obrigatória para fãs de ficção e altamente recomendada para todos em geral.
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