A Condessa Sangrenta Erzsébet Báthory e a obra de Alejandra Pizarnik

11/08/2018




Ilustração de Santiago Caruso para a obra
"A Condessa Sangrenta", de Alejandra Pizarnik

Erzsébet Báthory – ou Elisabete, em português – foi uma condessa húngara que entrou para a História da Humanidade por supostamente ter cometido uma série de crimes hediondos e macabros. Personalidade controversa, Elisabete foi considerada uma das pessoas mais cruéis de sua época, e sobre ela e seus hábitos desumanos, muito se relatou em lendas húngaras do século XVI e XVII.

No dia 7 de agosto, comemora-se o aniversário da condessa, que nascera em 1560. Elisabete Báthory sempre é lembrada em outubro, época em que normalmente se contam muitas histórias de terror e é uma das personagens históricas mais inspiradoras da arte, sendo incontáveis as referências que lhe têm sido feitas no cinema, na literatura, na música e nas artes visuais.

Conheci a história de Elisabete Báthory em 2016 através da leitura da obra  A Condessa Sangrenta, de Alejandra Pizarnik, para o Projeto Vórtice Fantástico de que participo, aqui em Porto Alegre. O livro foi escrito na década de 1960, inspirado por Erzébet Bathory: La comtesse Sanglante, de Valentine Penrose (Paris, 1963). A narrativa de Penrose deixou Pizarnik completamente fascinada pela personalidade de Báthory e a ela dedicou uma obra-prima: o livro de Pizarnik possui descrições bastante precisas sobre os rituais de tortura praticados pela condessa, retratados de uma forma muito lírica.



Título: A Condessa Sangrenta
Autora: Alejandra Pizarnik
Ilustrações: Santiago Caruso
Editora: Tordesilhas
Ano de publicação: 2011
Número de páginas: 60
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Sinopse: Novela de terror inspirada na vida da condessa húngara Erzébet Báthory, condenada pelo assassinato de 650 jovens mulheres com requintes de crueldade.Vários dos tormentos aos quais as jovens foram submetidas são descritos no livro.
Primeira obra da autora publicada no Brasil. Posfácio de João Silvério Trevisan (autor de Ana em Veneza e Devassos no Paraíso). Ilustrações do argentino Santiago Caruso.








A família Báthory era uma das antigas famílias nobres da Hungria. Erzsébet foi criada na Transilvânia (mesmo local do Drácula, lembram? Uma das alcunhas de Báthory é, justamente, Condessa Drácula), região da Romênia que faz fronteira com o país húngaro. Os relatos sobre sua infância sempre diziam que ela sofreu diversas doenças e estas acabaram por intensificar seu comportamento rancoroso e incontrolável. Elisabete tinha uma conduta bastante questionável e, com o tempo, isso foi adquirindo requintes de crueldade. Ficou noiva aos 11 anos do conde Ferenc Nádasdy, passou a viver no castelo da família de seu noivo e, aos 14 anos engravidou de um camponês. O bebê – uma menina – foi afastado da condessa logo após o nascimento, sendo dada a um casal de camponeses para que eles fugissem do reino com a filha bastarda. Após o acontecimento, a condessa casou com Nádasdy, e a partir daí que suas tendências sádicas realmente se revelaram: o conde ficava fora de casa por longos períodos e Elisabete assumia os deveres de cuidar dos assuntos do castelo.

Sozinha com os criados, Elisabete demonstrava-lhes seu poder através de castigos, sentindo prazer na tortura e na morte de suas vítimas. No entanto, não eram os criados os seus principais alvos. A condessa escolhia, geralmente, jovens mulheres virgens que ainda não tiveram o sangue corrompido para que esses rituais medonhos fossem concretizados.

As torturas variavam de alfinetes espetados em pontos sensíveis do corpo até o corte de membros, congelamento e decapitação. Há relatos que detalham a obsessão da condessa pela juventude e beleza. Sendo assim, ela bebia e banhava-se com o sangue de suas vítimas que, conforme o que se acreditava, contribuiriam para que a condessa se mantivesse jovem e bela para sempre.

Esse tratamento de beleza sinistro se intensificou após a morte do marido de Elisabete. A condessa sangrenta mudou-se para Viena, local onde seus atos foram os mais depravados e aterrorizantes. Durante as sessões de tortura, Elisabete, entretanto, não ficava sozinha. Ela teve algumas companheiras nos crimes, uma senhora que diziam ser uma “bruxa” e um tempo depois, uma mulher que diziam ser sua amante. Além delas, alguns criados serviram também como cúmplices – cada um com uma função específica durante e após os atos. Elisabete normalmente assistia às atrocidades, deleitando-se com cada cena.






Frente a essas práticas extremamente bárbaras, Alejandra Pizarnik nos presenteia com uma verdadeira obra de arte. Com sua escrita envolvente e poética, a autora conduz os leitores a um mergulho no universo sombrio de Erzsébet Báthory e fazendo-os questionar sobre os acontecimentos e sobre a sanidade da condessa. As ilustrações de Santiago Caruso nos levam a ter uma experiência de leitura mais rica. Algumas deixam-nos bastante desconfortáveis quando as associamos ao relato de Pizarnik. Porém, temos a certeza de que, apesar das poucas páginas, estamos diante de um livro de estética muito bem elaborada.






Em 1610, iniciou-se uma série de investigações sobre os crimes da condessa. O motivo verdadeiro não era condená-la pelas ações sanguinárias, mas o de lhe confiscar os bens. A única prova encontrada para incriminar a condessa foi uma agenda descoberta em seus aposentos, no interior desta, uma lista de 650 nomes de suas vítimas, escritos pela própria Elisabete. Contudo, ela não esteve presente em nenhuma das sessões do julgamento. Lembrando que era século XVII, a condenação provavelmente já estava decidida desde o início das investigações.

Foi condenada à prisão perpétua em solitária e seus cúmplices foram executados. Acredita-se que Elisabete Báthory tenha morrido de inanição porque quando descobriram seu corpo, havia diversos pratos de comida intocados e como ninguém tinha contato com a condessa durante esse período - só passavam o alimento por uma abertura - não se sabe ao certo.


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As lendas sobre Elisabete Báthory ficaram conhecidas a partir da descoberta dos documentos sobre o seu julgamento por um padre jesuíta. Curioso, resolveu recolher relatos sobre a vida da condessa que circulavam na região. Este padre lançou um livro sobre a história da Hungria que continha essas narrativas populares sobre Elisabete Báthory e, como a época de lançamento da obra era de um grande interesse por vampiros, encontrava-se no texto a ideia de que a condessa bebia e se banhava em sangue. A verdade é que não se sabe ao certo sobre os acontecimentos. Há quem diga que a condessa tenha sido vítima da ambição humana pois ela era a mulher mais rica da Hungria e o próprio rei lhe devia uma fortuna. Há quem diga que ela era uma mulher muito perversa. Nunca foram encontradas provas concretas dos crimes bárbaros creditados à condessa, então, há quem diga que a história de sua vida tenha sido forjada por nobres da época.


A vida de Erzsébet Báthory é, no mínimo, polêmica. Sua conduta, sua orientação sexual, seus atos de crueldade são questionados até hoje, cinco séculos após esses possíveis acontecimentos. Pizarnik enxergou nessa história uma beleza nefasta e o resultado foi muito interessante. Apesar de não ser uma leitura que me agradou por completo - confesso que gostei muito mais da história por trás do livro do que o livro em si - recomendo pois a obra de Pizarnik é realmente bonita e diferente de tudo o que já tinha experimentado ler. É uma leitura muito rápida (são apenas 60 páginas) e as ilustrações nos fazem viajar para as torturas (sério, é muito doido!). Recomendo para quem gosta de lendas de vampiro, histórias de terror, rituais macabros e para quem gosta de belíssimas ilustrações com um clima gótico.


E, como sempre digo, se você não gostar do livro, pelo menos ele ficará bonito na estante! 


Resenha escrita em setembro de 2016.


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Hoje eu estarei na Bienal do Livro de SP! Não deixe de me acompanhar nas redes sociais do blog e ver o que ando fazendo por lá! ;)


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Ana Karina (ou só Karina) é a criadora e autora do blog Da Literatura. É gaúcha de Porto Alegre, geminiana tagarela e mãe da Capitu e do Bilbo. Atua como professora de Literatura e Língua Portuguesa da rede municipal e ama a sua profissão. Viciada em livros, cinema, arte e cultura geek. Adora viajar, conversar e fazer piadas sem graça.

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6 comentários:

  1. Hey, Ana!

    Mulher, eu já vi esse livro por aí tantas vezes super barato, mas nunca dei nada pra ele pela sinopse.
    Agora me arrependo amargamente por nunca tê-lo comprado!
    Vou correndo procurar, já quero!
    Sua resenha me ganhou de uma vez só. Parabéns!

    Beijos!

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  2. Ei, Ana! Minha deusa!!! que livro é esse?! =O
    Só a capa já me faria tirá-lo da prateleira, aí junta uma história dessa?? Conheci algumas das lendas, mas não a condessa por trás delas. A história da condessa, justamente por ter tão poucos documentos, é uma daquelas q me deixa mais curiosa. Gostei do livro (mas tb acho q gosto mais da história da Liz, partamos para as indimidades) e tenho praticamente certeza q leria. Gostei muito também de como você explicou a história da personagem antes de apresentar o livro em si. Aliás, sempre gosto dos seus textos! ;) bj!!!

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  3. Oii, Ka
    Que post lindooo. Adorei!!
    Concordo contigo, tbm gostei mais da história por trás do livro. Apesar do livro ser bom. Gostei mais de pesquisar sobre a história.
    Bjus

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  4. Não conhecia a história e achei muuuuuito interessante. Agora quero ler o livro. Leitura rápida,mas decerto inesquecível. E Meu Deus...que ilustrações! Adorei.
    Abraço;

    http://estantelivrainos.blogspot.com

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  5. Olá
    muito interessante parece ser o livro, quem sabe uma hora eu de uma chance, porém, parece ser algo bem complexo e adorei sua resenha

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  6. Parece muito interessante. Gostaria de ler.
    Bem, vou pesquisar mais sobre a condessa.
    ;o)

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