SOBRE SENTIR-SE BONITA, OU O QUE ACHEI DO NOVO FILME DE AMY SCHUMER

28/06/2018


Por Priscila Zigunovas

Em uma das melhores cenas do polêmico novo filme da comediante nova-iorquina Amy Schumer, I Feel Pretty (Sexy por acidente no Brasil), uma mulher de 30 e poucos anos vestindo calcinha, sutiã e uma cinta para diminuir a barriga contempla sua imagem no espelho.

No rosto de Renee Bennet, funcionária de uma grande empresa de cosméticos de Nova York, está o desapontamento com o seu corpo imperfeito, mostrado sem os retoques e jogos de luz típicos de Hollywood.

Nada que qualquer mulher não tenha experimentado, pelo menos em algum momento da vida. Renee sofre por não conseguir se encaixar no padrão de beleza atual. Ela assiste tutoriais de cabelo e maquiagem no YouTube e tenta reproduzir penteados, sem sucesso. Na academia, tem vergonha de dizer à recepcionista o número que calça, e na fila da farmácia se convence de que um bebê está chorando porque a acha feia.



Tudo muda quando ela passa a enxergar a si mesma de uma forma totalmente nova.


Makeover mental


I Feel Pretty, que estreia hoje (28 de junho) no Brasil, é um filme de makeover às avessas. (Sabe os filmes de makeover, em que uma mulher maravilhosa feia [geralmente uma linda atriz que passou por um processo de “embarangamento”, que inclui óculos inexplicavelmente ridículos, roupas sem graça e cabelo desgrenhado, quase sempre crespo] transforma o seu visual e ganha a confiança que faltava para vencer na vida?)

Pois é. Em I Feel Pretty, a aparência de Renee continua sempre igual. O que muda é o jeito como ela enxerga a si mesma, após cair de uma bicicleta na academia e bater a cabeça. Renee acorda sentindo-se “incrível” e, de novo em frente ao espelho, não consegue acreditar na imagem que vê.

O espectador, porém, continua a enxergar a mesma Renee de antes. Em nenhum momento a personagem diz que se tornou magra, mas é o que se deduz.


A confiança adquirida com a nova percepção sobre a sua aparência dá a Renee a coragem necessária para fazer coisas que ela antes temia, como convidar um cara para sair e candidatar-se a um emprego na sede da empresa.

Uma série de coincidências e mal-entendidos corrobora a visão de Renee de que ela está irreconhecível, o que garante momentos hilários (muitas vezes forçados ou carregados de exagero, o que não incomoda quem está acostumado ao estilo de Schumer).

O que acontece depois eu não vou contar aqui, mas a mensagem é óbvia: acredite em si mesma, ame o seu corpo e você conseguirá o que quiser.


Críticas


Mesmo antes do filme ser exibido nos cinemas americanos, o lançamento do trailer gerou repercussão, com muitas críticas desfavoráveis.

Uma das mais recorrentes vem de pessoas que alegam que a personagem de Amy Schumer, na visão delas, não teria motivos para se sentir insegura, por ser loira, branca, de olhos azuis, hétero, feminina, etc. Ou seja, ela estaria muito mais próxima do que distante do padrão de beleza vigente.

Essa última parte é verdade. Mas confesso que, depois de assistir tantos filmes com protagonistas com corpo de supermodelos tentando nos convencer de que são feias, foi um alívio ver os pneuzinhos e celulites de Amy na tela.



A verdade é que todo mundo tem suas inseguranças, não importa se homem ou mulher, não importa o tamanho do corpo. Mesmo aquela amiga que você acha linda e maravilhosa também pode ter seus problemas de autoestima. E ela tem direito a isso. Todo mundo tem, e não cabe a mais ninguém dizer quem pode ou não pode se sentir inseguro com base na sua aparência.

O filme mostra isso por meio dos outros personagens. O namorado de Renee (Rory Scovel), que faz aulas de zumba, sente-se inseguro por não se encaixar no molde do homem-macho-padrão.

A chefe de Renee, interpretada por Michelle Williams, é bonita, rica e magra, mas tem vergonha da sua voz estridente.

O irmão da chefe (Tom Hopper), também rico e bonito, é inseguro porque acha que as mulheres só se interessam por ele por causa de seu dinheiro e de sua aparência.

Até a amiga de Renee com aparência de supermodelo (Emily Ratajkowski) é insegura, e surpreende a personagem principal ao ser largada pelo namorado.


Efeito colateral


Falar sobre imagem corporal nos tempos de hoje não é tarefa fácil, e acho que um dos motivos pelos quais o filme despertou reações tão acaloradas é porque ele toca em pontos sensíveis.

De qualquer forma, a discussão levantada é interessante. Acho que está mais difícil ter uma conversa aberta sobre as nossas inseguranças com o corpo, porque a ordem hoje é ser feliz, empoderada e satisfeita apesar do padrão de beleza vigente.

Essa é uma ótima ideia, em teoria. BUT, pelo menos para mim, não é assim tão fácil. No fundo sempre fica um sentimento de que eu me sentiria melhor com alguns quilos a menos (e acho que muita gente passa por isso também). Pensando nisso, acho que a premissa do filme é tão inspiradora quanto problemática.

Problemática porque ela tem um efeito colateral: se para ser feliz e ter sucesso basta acreditar em si mesma, o ônus fica para as mulheres, que devem reunir confiança suficiente para se sentir bonitas apesar do padrão, apesar de não se verem representadas na televisão, no cinema e na propaganda. É uma negação do padrão, e não uma mudança do padrão em si (faz sentido?).

E aí o que acontece é que não ficamos apenas inseguras com a nossa aparência, mas também inseguras com a nossa própria insegurança. Toda vulnerabilidade deve ser escondida. Assim vamos cumprindo o nosso papel de mulheres modernas, confiantes e bem resolvidas.

Mas e quando estamos sozinhas, em frente ao espelho?

Sexy por acidente (I Feel Pretty)
Estados Unidos, 2018, 1h50.
Direção de Abby Kohn e Marc Silverstein. Com Amy Schumer, Michelle Williams, Emily Ratajkowski, Tom Hopper, Lauren Hutton, Adrian Martinez, Rory Scovel e Naomi Campbell.

Confira também o episódio do Geekburger que eu gravei com o Luís Volkweis:


DOWNLOAD
(Clique com o botão direito e escolha “salvar destino como”.)



Priscila Zigunovas é jornalista e fundadora da Think, Mario Estúdio de Conteúdo. Escreve sobre cultura, educação, gastronomia e o que mais der vontade. Ainda sonha em ser patinadora do Carrefour.

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