Resenha: Confissões de Narciso – Autran Dourado

07/01/2018

Título: Confissões de Narciso
Autor: Autran Dourado
Editora: Rocco
Ano da edição: 2001
Número de páginas: 160





Sinopse: O poeta e advogado Tomás de Sousa Albuquerque tem diante de si o camafeu que pertenceu à adorada mãe. É a inspiração indispensável para escrever sobre a tragédia pessoal que a vida amorosa lhe proporcionou. Influenciado principalmente por Stendhal e Goethe, Tomás deixa para a posteridade um verdadeiro tratado sobre a desilusão e o amor, na forma de um dossiê, escrito na cidade mineira de Duas Pontes, seu último refúgio. Sofia, a viúva, leva os originais para apreciação do escritor João da Fonseca Nogueira, que resolve procurar um editor e publicá-los. O caderno entregue a João são as confissões do título desta obra de Autran Dourado, cuja hábil narração em primeira pessoa constrói um personagem angustiado, símbolo da utopia no amor e de algumas de suas facetas, cada uma com um nome feminino. Amélia, Alma, Teresa, Beatrice, Beatriz, Izabel, Margarida, Carolina e Angélica são as mulheres que colaboram para a dúvida do protagonista: identificar se com a trágica figura mitológica de Narciso ou com o atormentado e suicida Werther? Para o doutor Tomás, não importava tanto a beleza das amadas, mas sim a semelhança física com a imagem eternizada no camafeu, e o encaixe de uma ideia que encontra em todas as suas amantes pontos de confluência, silenciosa e minuciosamente dissecados nas memórias do personagem. Freud, Don Juan e Platão também servem de reflexão e ajudam o protagonista a desenvolver a sua história, marcada por dilemas, desafetos e desencontros. Em cada experiência ele procurava a mais perfeita criatura, a impossível e pura beleza original, cristalina, eterna, edênica. E encontrava a desolação de não conseguir levar adiante nenhuma das suas tentativas de relacionamento. A morte, a traição e o ciúme abreviavam cada passo em direção à melancolia de uma busca pontuada por alegria e tristeza, prazer e dor.
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Eco e Narciso -  John William Waterhouse (1903)


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Conheci a obra de Autran Dourado durante a seleção de mestrado em 2009, quando tive que ler Ópera dos mortos. Gostei tanto da leitura que li logo após Uma vida em segredo e comprei Confissões de Narciso na Feira do Livro do mesmo ano. Estava apaixonada pela escrita do autor. No entanto, como sempre, adiei a leitura pois fazer um curso de Mestrado, trabalhar e viver ao mesmo tempo enlouquecem qualquer um. Em 2014, participei de um Desafio de Férias #EuLeioNacionais, da querida Letícia Venerando do blog Mãe, tô escrevendo e finalmente tive a oportunidade de retornar à linguagem de Dourado.

Confissões de Narciso é um romance dentro de um romance. Como assim? Bom, o texto inicia com a esposa de Tomás de Sousa Albuquerque entregando os escritos do falecido marido ao escritor João da Fonseca Nogueira. Até aqui, a narração é em terceira pessoa. E serve de introdução à história propriamente dita (inclusive o texto é escrito em itálico até aqui).

A história de Tomás de Sousa Albuquerque é narrada por ele mesmo. É um caderno de memórias que possui como fio condutor o camafeu que pertencia a sua mãe. A partir da figura do camafeu, Tomás escreve sua tragédia pessoal, relatando os principais acontecimentos de sua vida amorosa, as mulheres amadas por ele, as desilusões, as angústias e as suas reflexões sobre as obras de Stendhal e de Goethe, fontes de inspiração, de dúvidas e de opinião sobre o amor.

O narrador escreve suas memórias na cidadezinha de Duas Pontes. Em alguns momentos lembrou-me de Dom Casmurro e seu intuito de “atar as duas pontas da vida” para que pudesse compreender em sua velhice os acontecimentos de sua juventude. Acreditei ser essa a intenção do narrador, mas após a leitura penso que ele não precisava se compreender mas se justificar.

As mais feministas talvez se irritem com o personagem (eu me irritei um pouco!) pois ele se envolve com dez mulheres devido ao sentimento amoroso sincero, segundo ele, e após algum tempo a relação termina de forma decepcionante para ele pois geralmente ele é traído (fiquei com tanta raiva que achava que às vezes ele merecia) pela amada. A partir dessa rotina amor-desamor-traição-decepção, Tomás passa a se questionar e a refletir sobre o amor. Surgem as reflexões sobre as teorias dos autores lidos: a cristalização amorosa de Stendhal, a decepção e o consequente suicídio de Werther, de Goethe. Além desses, surgem questionamentos a partir de Freud e ainda uma possível comparação com Don Juan, Narciso e o jovem Werther.

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Narciso, de Caravaggio (1571 - 1610)

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A leitura, que eu tinha achado arrastada no começo, foi me conquistando aos poucos. Talvez quem não tenha lido Goethe e não conheça o mito de Narciso, Don Juan e nunca tenha ouvido falar dos escritores mencionados não aprecie a obra pois realmente requer um pouco o reconhecimento dessas referências.

A maneira como o personagem define o amor e tenta compreendê-lo é muito angustiante em alguns momentos. Tomás é um ser atormentado e bastante infeliz na minha opinião. É obcecado por essa beleza da figura do camafeu, tenta encontrar a perfeição nas mulheres com quem se relaciona, mas percebe que a realidade é muito diferente do que ele pensa ser o ideal. Achei um texto bastante atual já que as relações de hoje são, muitas vezes, efêmeras e decepcionantes. No entanto, isso me incomodou em alguns momentos por pensar que talvez a humanidade viva nesse círculo vicioso de relacionamentos baseados na desconfiança, na mentira e na falta de amor.

No geral, gostei da obra, recomendo a leitura, apesar de gostar mais das outras que li desse escritor.

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Ana Karina (ou só Karina) é a criadora e autora do blog Da Literatura. É gaúcha de Porto Alegre, geminiana tagarela e mãe da Capitu. Atua como professora de Literatura e Língua Portuguesa da rede municipal e ama a sua profissão. Viciada em livros, cinema, arte e cultura geek. Adora viajar, conversar e fazer piadas sem graça.

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