Sétima arte #30: La La Land

21/02/2017


.


Título original: La La Land
Título no Brasil: La La Land – cantando estações
Ano de lançamento: 2016
Direção de Damien Chazelle
Roteiro de Damien Chazelle
Música de Justin Hurwitz
Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend, J.K. Simmons e Finn Wittrock.
Gênero: comédia; drama; musical.
Duração: 128 minutos




Sinopse: Em Los Angeles, uma aspirante à atriz e um músico falido se encontram em um momento caótico de suas vidas. Ao passar das estações, o romance avança e os dois começam a ajudar o sonho um do outro. Mas a realidade acaba interferindo da vida do casal.

.


Deus sabe o quanto tentei escrever, exprimir palavras sobre La La Land. Até esse momento. Vou tentar organizar todas as minhas impressões anteriores e posteriores ao momento em que assisti a La La Land. Não está sendo uma tarefa fácil, mas vamos lá. Antes de tudo, quero pedir desculpas de antemão, porque talvez escape algumas informações importantes. Não foi de propósito, só seguindo o fluxo.


Bom, aprecio muito os musicais. Esse é um fator importantíssimo para a minha apreciação. O buzz que girou em torno de La La Land – se não me falha a memória – começou em meados de setembro, quando passou pelo Festival de Veneza, onde teve início a sua trajetória vitoriosa até culminar no próximo domingo (26) no Oscar, no qual recebeu quatorze indicações, se igualando a Titanic (1997), um grande clássico do cinema mundial.



Voltando: como grande amante do gênero musical, fiquei logo entusiasmada quando soube que (finalmente) um musical voltava aos holofotes. Durante os últimos tempos alguns pularam por aqui e por ali, mas desde Chicago (2002) não temos um bom musical. Então, disseram: La La Land homenageia os musicais clássicos. Meu coração foi à boca. Era minha obrigação ver esse musical no cinema. Criei altas expectativas. Vi o trailer: tem um tom romântico, pensei. Longos meses se passaram e eu me corroía de ansiedade para assistir ao filme; não conseguia me conter. Até que o filme começou a circular na internet e chegar às salas de cinema. Vieram as primeiras críticas... Alguns dos meus amigos disseram que adoraram; outros, odiaram. Ainda sim, mantive as expectativas altíssimas. Foi então que, finalmente, tive a oportunidade de ver La La Land.


É o seguinte: a primeira sequência do filme já tem um número musical. Another day of sun representa metaforicamente o desejo do diretor em homenagear as pessoas que se mudam para Los Angeles em busca de seus sonhos. Em vez de mostrar os encantos de LA, como se fosse uma Paris americana, Chazelle opta por focar, nessa sequência, no trânsito, nos carros parados que seguem um mesmo rumo. Essa é a metáfora principal do filme: como já disse, todas essas pessoas estancadas em seus carros, tão diferentes, estão buscando os seus sonhos. Simples assim, esse é o tema principal do filme. Então, se você é uma pessoa mais prática e objetiva, talvez você saia bufando da sala de cinema.


Os personagens principais só se “esbarram” no fim dessa sequência. Lembra-se que eu disse que o filme era pintado como uma homenagem aos musicais clássicos? Pois é. Nesse momento, Mia (Stone) e Sebastian (Gosling) estão em seus respectivos carros. Sebastian começa a buzinar incessantemente para o carro da frente, que é o de Mia. Aí você pensa: eles vão se ver e se apaixonar perdidamente, como acontece nos filmes antigos. Sinto dizer que você nunca esteve tão enganado. Sebastian ultrapassa Mia e continua a buzinar, em forma de protesto pela demora dela, e ela dá dedo a ele. E é assim que o primeiro contato entre o casal é estabelecido.




A explicação mais delongada dessa sequência é importante, porque o filme homenageia, sim, os filmes clássicos; tanto é que aqui e acolá você irá captar algumas referências a outros musicais, como Cantando na chuva (1952). Porém, o mais correto é dizer que La La Land ironiza esses musicais e a maneira como a narrativa se desenvolve nesses. Podemos ver isso já na sequência que falei anteriormente: se fosse em um musical dos anos 50, talvez os dois personagens tivessem trocado longos olhares e se apaixonado perdidamente. Esse tipo de situação vai ocorrer em todo o filme. O que foi um choque, aparentemente, tanto para mim quanto para todos que estavam na minha sessão. Em determinadas cenas, podia-se até mesmo escutar, se isso é possível, a interrogação dos espectadores com determinadas atitudes e como as coisas se resolviam – tentando não te dar spoiler, por isso uso “coisas” e “determinadas”. Essa quebra de expectativa é, ao mesmo tempo, instigante e, de certa forma, triste para quem assiste, porque o trailer não dá pista do que o filme é na verdade. Então, você espera uma coisa e recebe outra totalmente diferente.


Esse é um recado às pessoas que não entendem bem as sequências musicais e por isso abandonam o filme só por isso: todas as sequências musicais do filme são metáforas para o que está acontecendo na vida dos personagens, as sequências não estão/são jogadas à toa. É extremamente importante treinar o olhar para as sequências musicais desse tipo de gênero cinematográfico. Uma sequência musical é como se fosse uma metáfora no meio da prosa, é como quando Guimarães Rosa diz em Grande sertão: veredas: o diabo na rua, no meio do redemoinho... Musical é um cinema poético até à raiz.



.
Não vou mentir: não é o melhor musical que você vai ver na sua vida. O maior defeito, a meu ver, é no roteiro, que não tem grandes reviravoltas e se fosse puramente ele, sem a grande direção técnica, não teria conquistado metade da fama que tem atualmente. Mas, verdade seja dita, a montagem e a quebra de expectativa, da qual já falei, transformam La La Land no grande favorito para melhor filme do Oscar 2017, e Emma Stone como melhor atriz.


La La Land foi concebido por dois sonhadores: Damien Chazelle e Justin Hurwitz, amantes de música e desse tipo de cinema. Desde 2010, os dois amigos tentam lançar La La Land – que ainda nem tinha esse nome. No elenco, mais dois sonhadores: Emma Stone e Ryan Gosling. Stone convenceu os pais que deveria ser atriz em uma apresentação de Power Point (fica a dica). Ryan Gosling fez parte do Clube do Mickey, da Disney quando era muito novo, mas só veio ganhar notoriedade em 2004 com Diário de uma Paixão. E, provavelmente, cada um que trabalhou nesse filme sonhou em estar lá. E é essa a mensagem maior do filme: sonhar. Em tempos sombrios, precisamos de sonhadores, de artistas, de metáforas; precisamos pintar (ou destruir) muros.


Todo o tempo que passei envolvida com La La Land me lembrou do quanto esqueci dos meus próprios sonhos; do quanto esqueci de seguir em frente; do quanto tive medo de ir embora. La La Land me lembrou de que eu guardei, lá no fundo, a alma sonhadora que existia dentro de mim por causa da faculdade, do ganhar dinheiro, das obrigações da vida. É por essas e outras que La La Land se tornou um grande filme para mim e espero que para você também. Por fim, um brinde aos tolos que sonham!


.


*Imagens retiradas da Internet




.
.

Ana Karina (ou só Karina) é a criadora e autora do blog Da Literatura. É gaúcha de Porto Alegre, geminiana tagarela e mãe da Capitu. Atua como professora de Literatura e Língua Portuguesa da rede municipal e ama a sua profissão. Viciada em livros, cinema, arte e cultura geek. Adora viajar, conversar e fazer piadas sem graça.

0 comentários via Blogger
comentários via Facebook

Nenhum comentário:

Postar um comentário